08 de dezembro de 2017

“A luta mais dura de Pinhão é a luta pela terra”



No dia 1º de dezembro, 14 famílias foram despejadas e viram suas casas serem totalmente destruídas pela empresa madeireira Zattar

“Eles chegaram e não deram prazo pra nada. Falaram para eu parar de fazer o que estava fazendo e tirar as coisas da casa”. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, Dona Joaquina, de 55 anos, e seu neto, de 14 anos, começaram a tirar as coisas que julgavam mais importantes de dentro de casa. Seu irmão, de 75 anos e com problemas de saúde, em meio ao desespero esqueceu até os remédios. “Foi todo o leite fora. O resfriador, eu voltei para buscar, a ordenha não deu tempo. Os porcos, as galinhas, os patos ficaram tudo por lá. Destruíram tudo, destruíram meu jeito de vida”.

O depoimento representa a aflição e o desespero de uma das 14 famílias que foram despejadas e viram suas casas e suas vidas serem destruídas na comunidade de Alecrim, município de Pinhão - PR. Dona Joaquina está morando de favor em uma casinha emprestada por uma amiga. Até a terça feira (05), ainda não tinha luz e nem água encanada.

“O que eu fiz em 20 anos, destruíram em cinco minutos”, lamentou o seo Aldoíno Grando, que ao lado da esposa, ambos de 61 anos, e do filho, tentam reorganizar a vida, também em uma casa emprestada por um amigo. “Deixei um cavalo e o cachorro, mas não tenho coragem de voltar para buscar e ver tudo destruído”. Além dos animais, alguns móveis também foram destruídos juntamente com a casa.

Localizado na região Centro-Sul do Estado, o município de Pinhão vem sofrendo com conflitos agrários há décadas. “A luta mais dura de Pinhão é a luta pela terra”, afirmou o prefeito Odir Gotardo ao assegurar que a prefeitura tomará todas as medidas necessárias para evitar novos despejos. 

A ação de reintegração de posse em favor da indústria madeireira João José Zattar, uma das maiores devedoras da União, que culminou com a destruição total de 14 casas, uma igreja e um posto de saúde, foi autorizada pelo Tribunal Superior de Justiça (STJ) em 2004. Desde então, a empresa vinha tentando negociar com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) uma saída para o conflito. “Em 2004, as pessoas que estavam nessas terras foram informadas que tinham que sair. Nós, da empresa, esperamos por 13 anos uma ordem do governador para que esta reintegração fosse executada”, afirmou Miguel Zattar Filho e, entrevista ao Sindicato Rural de Guarapuava.

O secretário de Estado de Segurança Pública, Wagner Mesquita, que autorizou o uso do aparato policial para que o despejo fosse executado, afirmou, em entrevista ao jornal Diário do Sudoeste, que a operação foi realizada da maneira mais adequada possível. Segundo ele, 100 policiais participaram da operação e a destruição das casas não foi obra da polícia.

Uma nova ação de reintegração de posse estava prevista para esta quinta-feira (07) na comunidade denominada Fazenda Reta. Porém, a pedido do Ministério Público, a Justiça suspendeu a ação e deu o prazo de 10 dias para manifestação do Incra, da Assessoria Especial de Assuntos Fundiários, do Governo do Estado, e da Secretaria de Assistência Social de Pinhão.

Ao todo, de acordo com o prefeito Odir Gotardo, 10 comunidades podem sofrer ordem de despejo.  “É um baque econômico e social e só o Incra pode resolver o problema”, ponderou ao avaliar que, em caso de novas execuções, só existe uma saída: resistência. “Quanto mais você olha, mais você chega à conclusão de que a única alternativa é enfrentar. A prefeitura não vai ficar juntando os cacos depois. Se for preciso vamos usar todo o nosso aparato para impedir mais destruição”, assegurou.

Na segunda-feira (04), cerca de mil pessoas participaram de uma manifestação no centro da cidade em solidariedade às famílias despejadas e o comércio fechou as portas por duas horas.

Nesta quarta-feira (06), o movimento dos posseiros, juntamente com o Movimento dos Sem Terra (MST), bloqueou a PR-170, na saída para o município de Guarapuava, em protesto contra as desapropriações. Os manifestantes exigem a presença do superintendente do INCRA no local para buscar uma solução para o problema. “A luta nossa é uma só. Nós temos que nos unir”, afirmou um dos coordenadores do movimento dos posseiros, João Wilson Narciso.

A Cáritas Brasileira – Regional Paraná publicou Nota de Repúdio à ação realizada em Pinhão. No documento, a entidade ressalta que a luta pela terra em Pinhão não é de agora, data do início do século 20, quando aconteceram os primeiros conflitos entre posseiros, que já habitavam a região, e madeireiras, em especial a Zattar. “A ocupação da área pela empresa ocorreu em detrimento de famílias de pequenos agricultores que já habitavam as terras desde o Brasil imperial. Elas foram expulsas e assim a indústria constituiu um dos maiores complexos latifundiários do Paraná”, aponta a nota.

Missão Oficial – O deputado federal Assis do Couto (PDT/PR) em Missão Oficial, representando a Câmara dos Deputados, esteve na região de Pinhão nesta quinta-feira (07) para acompanhar a situação e melhor entender o conflito. Ainda na quarta-feira, Assis do Couto reuniu-se com o Ouvidor Agrário Nacional do INCRA, Jorge Tadeu Jatobá Correia, para tratar do assunto.



Fonte: Assessoria de Imprensa


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